Modelo atual da CBF dificulta renovação de verdade

A crise que abateu a Fifa e causou a renúncia de Joseph Blatter após a prisão de vários dirigentes também pegou a CBF em cheio. Além de ter o vice-presidente e último ex-presidente José Maria Marin preso, o atual, Marco Polo Del Nero, está certamente preparando a renúncia após ter saído praticamente fugido da Suíça e depois ver o nome ligado em esquema de propinas em troca de direitos de transmissão de competições e de venda de votos para escolha de sedes. Por mais que pareça um sinal de mudança, ela não deverá vir de verdade, justamente pelo modelo político da entidade, altamente concentrador de poder e que retroalimenta uma estrutura que inclui as federações estaduais.

Veja a estrutura da parte de cima da confederação: um presidente e cinco vices regionais, estes geralmente ligados às federações estaduais. Na vacância do presidente, quem assume é o vice mais velho, como foi com Marin quando da renúncia de Ricardo Teixeira, este envolvido em caso de propinas para a ISL, empresa que cuidava de marketing da Fifa, e que recentemente é investigado por movimentações suspeitas na época em que comandou a organização da Copa de 2014. Com Marin afastado, o sucessor seria Delfim Peixoto, presidente da Federação Catarinense e apoiador da direção.

Curiosamente, especula-se que, no congresso extraordinário marcado para o dia 12 de junho, Del Nero conspira para mudar o estatuto e colocar o deputado Marcus Vicente (PP) como presidente. Ele é o vice da Região Centro-Oeste. O que mudaria na prática sendo um ou outro? Nada e dificilmente mudaria também se houvesse uma nova eleição, pois o eleitorado é muito restrito.

Até poucos anos atrás, votavam apenas os presidentes da federações estaduais. Mais recentemente, o eleitorado aumentou para os 20 clubes da Série A junto com os presidentes de federações. É pouco e tende a manter o cargo dentro de uma mesma oligarquia. Nunca houve uma grande ruptura desde que a CBF foi desmembrada da CBD em 1979. O mais perto disto foi a chegada de Ricardo Teixeira, o que levou a turma de João Havelange, ex-presidente da CBD e então da Fifa (mandou entre 1974 a 1998), diretamente ao poder, pois Teixeira foi genro do quase centenário dirigente.

A CBF é hoje uma entidade que arrecada muito, principalmente com a seleção, mesmo a terceirizando. Por outro lado, os clubes enfrentam dificuldades financeiras e o esporte estagnou tecnicamente, se não regrediu. Poucos têm calendário decente e, longe da elite, atletas vivem rotina de trabalhadores volantes, jogando três meses aqui, três acolá, sem saber onde estará no próximo ciclo.

O jeito mais correto de melhorar a CBF e quem sabe mudar quem está no poder é aumentar o eleitorado de suas eleições (daria poder de voto a 47 delegados eleitos por jogadores e jogadoras e 47 delegados eleitos por treinadores e treinadoras, fazendo um colégio eleitoral tripartite e reproduziria o modelo nas federações estaduais) e abrir suas contas. Eu não acredito que isto vá acontecer sem algum grande choque exógeno e, por mais que o atual seja grande, não creio que seja o suficiente, ainda mais lidando com gente que tem entre uma das maiores características o apego pelo poder. Vejamos as cenas dos próximos capítulos.

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