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O dia em que o rock and roll morreu

(Imagem: AP Photo/File/Wikimedia Commons)

(Imagem: AP Photo/File/Wikimedia Commons)

Muhammad Ali era o rock feito gente, vencia, sofria, provocava e engajava. Foi um bailarino com punhos de uma tonelada. Peso e melodia. E como se deduz isso? Deduz-se pela trajetória e pela personalidade do grande lutador, ativista político, símbolo de uma era.

Muhammad Ali nasceu Cassius Marcellus Clay Jr. em 1942, mesma época em que a maravilhosa Sister Rosetta Tharpe, que não recebeu os devidos louros por isso, criava a linguagem do que viria a ser o rock and roll, com solos de guitarra. Mais que coincidência, pois ambos, Ali e o rock, viriam a ter a grande notoriedade nos anos 60.

Mas podemos ver que são a mesma essência. O rock foi a voz da juventude contra a Guerra do Vietnã, como Muhammad Ali também foi. São de uma geração que não quis ser igual aos pais, que quis ter voz.

Ali afirmava ser o maior, o rock também teve seus momentos assim. Mas também teve momentos que mostrou não ser indestrutível, como todas as injustiças que o boxeador sofreu por seu posicionamento, as pancadas que tomou, as hematomas e fraturas. E também momentos doces, como canções de amor.

Voar como uma borboleta são as notas da psicodelia do experimentalismo. Picar como uma abelha o peso. O jogo de pernas embalado como o piano frenético de um Little Richard. A esquiva com um suíngue de Mick Jagger. Os punhos pesados como os riffs de um Jimi Hendrix e de um Jimmy Page. A língua afiada como a dos Sex Pìstols, criativa como Frank Zappa, em busca de um mundo melhor como John Lennon e The Clash, apesar de toda a discriminação e massacre que o povo negro sofria (e ainda sofre, veja as notícias de genocídio em nossos jornais). E a revolta de sentir que tudo que conquistou é inútil quando viu seu povo ser massacrado, como todo o desencantamento pós-punk e do grunge. É o que eu disse ali em cima: Muhammad Ali era o rock feito gente.

Don McLean, em seu clássico “American Pie”, contou, em 1971, sobre “o dia que a música morreu” com a queda do avião que deu nome à canção e vitimou Buddy Holly, Ritchie Vallens e The Big Popper, além do piloto. Porém, o estilo continuou e se reinventou diversas vezes e várias vezes foi dado como morto. Em suas últimas décadas, Muhammad Ali conviveu com o terrível Mal de Parkinson, doença degenerativa que retira a força e a coordenação motora ao afetar o sistema nervoso central. Foi a luta mais dura do homem que fez Nelson Mandela se sentir livre antes da libertação.

Na noite do dia 3 de junho, podemos dizer que o rock and roll morreu com Muhammad Ali. Mas já tinha dito Neil Young que o rock and roll nunca morrerá e mitos nunca morrem. Se não mais no plano físico se encontra, o peso e a melodia do grande campeão está em todos. O mundo não foi o mesmo desde seus primeiros acordes. Vá em paz, guri!

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Dionísio e a experiência com Telê

Dionísio Filho morreu na manhã desta terça-feira, aos 58 anos (Foto: Reprodução / Facebook)

Dionísio Filho morreu na manhã desta terça-feira, aos 58 anos (Foto: Reprodução / Facebook)

O futebol paranaense amanheceu mais cinzento nesta manhã. Cinzento como o céu fechado desta segunda-feira (16) de carnaval. Morreu aos 58 anos o ex-lateral-esquerdo e comentarista Antônio Dionísio Filho. Nascido em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, Djonga surgiu no Botafogo local e defendeu equipes como Guarani, Internacional, Atlético-MG, Atlético-PR, Coritiba e Pinheiros, clube formador do Paraná Clube. No Galo, venceu o Mineiro de 1976, pelo Coxa, os Paranaenses de 1979 e 1989, e pelo Leão da Vila Guaíra os de 1984 e 1987. Trabalhava atualmente na Rádio Banda B e na TV Band Curitiba.

Dono de sorriso fácil e cheio de histórias para contar, o ex-lateral deixará muitas saudades. Uma dessas histórias remetem à passagem pelo Galo Mineiro, onde foi treinado por um dos maiores treinadores da história do futebol brasileiro, também de saudosa memória, Telê Santana. Não consigo precisar o ano exato, mas provavelmente foi em 2010, no fim do ano, num jantar que o Carneiro Neto geralmente organiza.

Entre um papo, uma costela borboleta, e outro, perguntei para o Djonga se quando ele jogou no Atlético-MG tinha sido treinado pelo Telê Santana e como tinha sido. Então, ele contou como treinador trabalhava. “Ele não era de táticas, mas gostava de conversar bastante com cada jogador, dizer o que cada um tinha de fazer e treinava muito fundamentos”, contou.

Fiquei com esta concepção martelando por anos e anos. Telê Santana era um tático do microcosmos, pois priorizava cada peça ao invés do macro. Queria ter escrito o texto com o Dionísio vivo e tentar mostrar que a história que me contou despretensiosamente um dia estava eternizada, como está sendo eternizada agora, mas por um motivo triste, pois se não fosse a infecção que o tirou a vida, teria mais muitos anos pela frente, ainda mais com o vigor e a energia que a levava. Talvez, um dos grandes feitos de Dionísio foi o de ter unido os três times do Trio de Ferro de Curitiba. A prova está nas notas de pesar e homenagem de Coritiba, Atlético e Paraná. Vai com Deus, Sangue Bom!

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